Democracia exige debate e projeto de desenvolvimento

31 Janeiro 2018 07:00:00

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Embora o cenário seja conturbado, Danilo Siqueira Campos, advogado de formação, mantém-se tranquilo e empenhado na missão delegada pelo Governo de Minas. Ele é diretor comercial da Gasmig, estatal mineira responsável pela distribuição de gás natural no Estado. Nessa entrevista, Danilo resume um pouco de sua história, fala da expansão da malha de distribuição de gás, dos desafios do PT e, ainda, critica a condenação de Lula, que para ele, trata-se de um "arranjo" que não expressa o compromisso de fazer justiça.

Jornal de Uberaba- O Brasil vive um momento muito conturbado que vem estimulando, inclusive, um debate político que beira o confronto. Como você avalia esse momento?

Danilo Campos- Não há democracia sem o debate, mas ele precisa ser civilizado, sem ódio. A humanidade e os países jamais cresceram sem o contraditório de ideias, de projetos, isso é que gera o desenvolvimento. Quem se acomoda no consenso não vai para a frente, é levado. Pena que no nosso país grande parte da mídia, que deveria ser isenta, esteja massacrando o único projeto dos últimos 500 anos, de inclusão das pessoas menos favorecidas. Ainda bem que grande parte da população reconhece isso, torce e votará na volta do Lula.

Jornal de Uberaba- A condenação em segunda instância, o TRF4, em Porto Alegre, afeta de que forma o partido e como você avalia esse fato?

Danilo Campos - Primeiro lamento profundamente e como eu, estão diversos juristas e até jornalistas conservadores como Reinaldo Azevedo - adversário histórico do PT - que critica fortemente a decisão do TRF4. Está claro que existem arranjos que estão além do desejo de fazer Justiça, já que é consenso que não existem provas contra o ex-presidente. Mas a luta continua e temos esperança de que, em algum momento, o respeito às leis seja resgatado e esse processo seja anulado pela enorme quantidade de vícios que ele apresenta. Do ponto de vista político ainda precisamos observar os acontecimentos, mas a injustiça fortalece ainda mais a imagem do Lula junto à população.

Jornal de Uberaba- Num cenário mais amplo, você acredita que o PT, mesmo diante da conjuntura de denúncias que atingem, inclusive, o maior líder do partido, o ex-presidente Lula, tem boas perspectivas eleitorais?

Danilo Campos- O partido tem um grande legado. Apesar da tentativa de destruição feita diariamente, o avanço social ocorrido durante os governos do PT está presente na memória do povo brasileiro. Apenas para citar números quando assumi a diretoria da Casemg, no início do governo Lula, em 2003 o Brasil tinha Produto Interno Bruto: de R$ 1,48 trilhões, em 2013 foi para R$ 4,84 trilhões, as Reservas Internacionais em 2002 eram de 37 bilhões de dólares em 2013, 375,8 bilhões de dólares. No governo FHC tinham sido gerados só 627 mil empregos por ano, nos governos Lula e Dilma foram gerados 1,8 milhões de empregos por ano, o Brasil passou de 13ª economia para a 7ª do mundo.

Jornal de Uberaba- Os números são contundentes. Mas existe percepção de amplos setores da sociedade em relação a essas conquistas?

Danilo Campos - Bom, de parte dela sim, mas existem setores que querem apagar isso, deixar isso em segundo plano. Mas são números incontestáveis. E vamos citar mais alguns: a taxa de desemprego: em 2002 era de 12% e em 2013 era de 5%. O salário mínimo em 2002 comprava 1,5 cesta básica, em 2013 comprava 2,5 cestas O Fies financiou 1,5 milhão de alunos nas universidades. Nunca se criou tanta universidade e escola técnica no país. Isso, para mim, despertou o ódio da elite contra o PT e o Lula. Não reconhecer isso é de uma covardia extraordinária. Agora tenho visto que o cidadão sabe quando o estão fazendo de otário.

Jornal de Uberaba- E quanto ao Governo de Minas, que tipo de avaliação podem fazer, especialmente, da forma de gestão adotada pelo governador Fernando Pimentel?

Danilo Campos- Fernando Pimentel é um homem público de extraordinária capacidade intelectual, política e de gestão. Economista de formação, renomado catedrático, tocou o Ministério de Desenvolvimento Econômico e toca o Estado com virtuosidade. Não fosse ele e sua equipe de competentes secretários, Minas estaria como muitos Estados que não conseguem nem cumprir seus compromissos. Ele está, com muita maestria, colocando Minas nos eixos, apesar das dificuldades de ter herdado um estado totalmente inoperante em termos políticos e quebrado em termos financeiros.

Jornal de Uberaba- Você é um personagem histórico dentro do PT nacional, tendo ocupado cargos de importância tanto no Governo Federal como no estadual. Atualmente você é diretor da Gasmig. Como você desenhou essa trajetória?

Danilo Campos- Sou histórico porque sempre me mantive no mesmo partido e com os mesmos compromissos por acreditar nas suas propostas para o desenvolvimento do país. Mas tudo tem um começo. Aos 18 anos já estava trabalhando no Banco do Brasil e assumindo a missão de dirigir a AABB. Em seguida, já em Uberaba, ingressei no movimento sindical, junto com valorosos companheiros, pegamos um Sindicato que englobava apenas oito cidade e entregamos a entidade classista com base de atuação em 32 municípios. Fundamos a primeira Cooperativa de Crédito de bancários do país e a primeira Rádio Comunitária também. Com essa militância conseguimos nos inserir nacionalmente como liderança da categoria.

Jornal de Uberaba- Essas conquistas levaram você a ocupar posições importantes dentro das gestão pública. Quais posições você já ocupou?

Danilo Campos- Todo partido que chega ao poder precisa de quadros idôneos e compromissados com a missão assumida com a sociedade. Creio, sem qualquer vaidade, que reuni essa condição. Em 2000 tornei me conselheiro fiscal da PREVI, maior fundo de pensão da América Latina e lá fui indicado para ser conselheiro fiscal e de administração de várias empresas como Belgo Mineira, Coteminas, Telemig Celular entre outras. Em 2003, após apresentar um trabalho sobre a armazenagem como instrumento de segurança alimentar e combate à fome, fui convidado para dirigir a diretoria comercial da Casemg.

Jornal de Uberaba- Ocupar um cargo na Casemg, naqueles tempos, não era necessariamente uma promoção, mas um desafio muito grande. Como foi sua atuação nessa empresa?

Danilo Campos- Desafios estão presentes na vida de todos nós e, certamente, naquele momento, ocupar uma posição de decisão dentro de uma empresa de dimensões da Casemg foi algo extremamente desafiador. Para se ter uma ideia, a empresa amargava 20 anos de prejuízos consecutivos e havia se transformado num problema para o Governo. Mas conseguimos vencer o desafio num tempo recorde. Em apenas dois anos ela voltou a ser sustentável e até a dar lucro, sem abandonar sua missão estratégica de garantir espaço para armazenamento para os produtores tradicionais e ainda reservar 10% da capacidade para agricultura familiar. Acredito que o acionista ficou satisfeito.

Jornal de Uberaba- Você também foi secretário da Agricultura da Prefeitura de Uberaba no primeiro governo do prefeito Paulo Piau. Como foi essa experiência?

Danilo Campos- Fui convidado pelo Prefeito Paulo Piau para organizar a Agricultura familiar em Uberaba, onde existem algo em torno de 2.400 estabelecimentos rurais de pequenos produtores inseridos no projeto, além dos assentamentos. Numa sinergia muito forte com o Governo Federal à época, conseguíamos alavancar vários programas, inclusive o PAA, um dos programas extraordinários criados pelo governo Lula/Dilma, onde o pequeno produtor vendia sua produção para a Prefeitura, que destinava aos bancos de alimentos. Acredito que cumpri meu papel, junto com o competente quadro de servidores da Secretaria. Acredito que foi por isso que em seguida o Ministro Patrus Ananias nos convidou para dirigir um dos principais programas do MDA, o PROINF.

Jornal de Uberaba- Hoje você está na diretoria Comercial da Gasmig. A maioria da população não tem conhecimento do papel da empresa no contexto do Estado. De forma resumida você poderia situar a missão da empresa?

Danilo Campos- A Gasmig é uma empresa do grupo Cemig e responsável pela distribuição do Gás Natural em Minas Gerais. Nossa missão é levar o Gás Natural em todas as regiões do estado, dentro do plano de negócios da companhia. Levando o Gás Natural estamos levando o desenvolvimento, pois o gás é o enérgico mais utilizado na indústria de transformação, aquecimento, automotivo entre outros, como em todos os países do G20. É um combustível de transição entre o combustíveis mais poluentes e o elétrico.

Jornal de Uberaba- A construção de um ramal de transporte de gás até o Triângulo Mineiro exige investimentos de mais de um R$ 1 bi. No cenário econômico em que estamos, você vê espaço para alocação de recursos dessa ordem?

Danilo Campos- Esse é um assunto largamente discutido e que merece muita atenção, por se tratar, de algo que interfere profundamente no projeto de desenvolvimento de Uberaba, e claro, de um vastas áreas por onde o gás poderia passar. Até que se viabilize o gasoduto, estamos trabalhando fortemente para levar o gás de outras maneiras para Uberaba e todo o Triângulo Mineiro. O gás pode ser levado comprimido (GNC) ou liquefeito (GNL) para a indústria, e outras aplicações, como o GNV. Também estamos trabalhando para viabilizar essas soluções alternativas ao Triângulo Mineiro, incluída nossa querida Uberaba.

Jornal de Uberaba- Mesmo sem definição sobre a fábrica de amônia, você acredita que a cidade deve continuar brigando para receber um ramal de gás para uso automotivo, doméstico e, claro, industrial?

Danilo Campos- Primeiro acho que a fábrica de Amônia é um projeto não só de Uberaba, mas de todo o país, portanto todos torcemos e trabalhamos para que ela se viabilize. Independentemente da fábrica, temos estudos para levar o gás via GNC e GNL para o Triângulo Mineiro, partindo de Uberaba. Temos o potencial da região, e já estamos visitando possíveis clientes. Portanto, estaremos aqui via GNC ou GNL. Estamos também trabalhando para viabilizar postos de GNV na região, para efetivar a rota do GNV ligando Minas aos demais estados.


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