Opinião — 16 fevereiro 2012 - ás 13:33

Trois Fois Vingt Ans

Três vezes vinte anos. Estou fazendo sessentinha. Chego ansioso, medroso, espantado e contra minha vontade. Mas fazer o quê. Neste ponto da vida, a gente chega com três idades de tempos diferentes que não batem uma com a outra: a Cronológica, a Psicológica, a Biológica e a Espiritual.
A cronológica marca os 60 na mosca, a psicológica é lá pelos 37 anos, não mais que isto. A biológica é sentidamente uns 25 anos, não sai disso. E olha que a medição mais certa é sentir o estado dos rins e a aparência esticada da pele do joelho. O mau funcionamento de um e o enrugamento de outro é que depreda o vivente. Você, no auge do conhecimento e sapiência acumulados com o tempo e a idade, sabe que tudo agora vai pro buraco, parece que não valeu à pena, foi um desperdício. Não me acostumo com os mais jovens referirem a mim como “senhor”.
Será que é pelos cabelos cinza ou pelo caminhar trôpego parecido com o andar de nossos irmãos primatas. Ou o semblante que fica carrancudo e embrutecido? Sinto que entrei numa roubada, uma gelada sem volta. E ainda sem um tostão, neste auge dos acontecimentos é demais. Num dá mais para regressar, voltar mesmo, ou então parar o tempo, congelar. Não pedi para nascer, sou muito puto com este meu surgimento neste planeta, agora que estou gostando da Terra e de viver, sou impulsionado a recuar porque não pude escolher ou permanecer onde estava (não me lembro nadinha de lá, ficaria por lá mesmo) e aqui não deu tempo de fazer tudo que gostaria. Não acumulei bens ou dotes, nada, tento fazer agora, não sei se vou dar conta e se vai dar tempo.
O quê que eu faço? Ainda mais que a OMS (Organização Mundial de Saúde) disse que a longevidade das populações de países em desenvolvimento é de 68 anos. Então só tenho oito anos para me preparar para o extermínio total. Já acontece uma transformação externa e visível da velhice, ou melhor, da minha extinção. Quando vejo um retrato atual não reconheço minha figura, minha visão cerebral vê uma pessoa mais velha, desgastada, que-que-isso, que não me vejo como antes, (como Daguerre fez a fotografia gelar o tempo). Já o espelho é “falso”, ele engana, você sorri ou melhora a cara e só enxerga as imagens mentais armazenadas no cérebro de você em outros tempos. Você só não se vê como o é hoje. Mas uma acelerada mudança começa pela cor dos cabelos, do preto para o cinza com certa alopecia. Diminuição auditiva, taciturnidade, alguns leves deslizes, pequenos esquecimentos, umas pouquíssimas manchas nas costas das mãos, e só. Epa, a barriga vai estufando. Mais nada.
Tudo tá bão. Mas, já me disseram, não tenha pressa, tudo virá com o decorrer do tempo (só restam 8 anos). E as rugas? Espera, elas também farão parte da sua fuselagem. E que mais? Você será aquinhoado com perdas e diminuições dos reflexos, das habilidades e funções neurológicas como raciocínio e memória, sexo, e poderá ter incontinência urinária, mal de Alzheimer, Parkinson, diabete, caduquice, placa de gordura no coração e seu colesterol e triglicerídeos não baixarão. A partir desta idade, não poderei comer coisas boas e terei de diminuir a quantidade de comida. Pelo que vejo falar, só é coisa ruim, “que vai chegando de mansinho e caladinho”. Eu me esqueci da osteoporose e do reumatismo, ainda não os tenho. É muita sacanagem com este lídimo representante da espécie humana.
Como dizia aquele macróbio amigo meu, nesta fase da vida a natureza é a primeira a despregar e abandonar o corpo do vivente e o deixando à deriva. E se o “animal” extrapola sua longevidade vivendo muito, o espírito até pede para o “mundo espiritual” que o libere para deixar o corpo (só pele e osso) já inútil e quase sem função. Outro dia, caminhando, cruzei com um amigo, ele me perguntou. Fazendo caminhada? Que nada, respondi, venho da farmácia, fui comprar LipLess, Lexotan, Rivotril, Vitaminas de A à Z e Fortificantes. E não adianta os ideais dos antigos gregos com seus pensamentos altruísticos, “Tem pessoas que nascem bombardeadas e já velhas, outras nascem sadias, puras, belas e serão sempre jovens”. Isto é consolo.
O melhor dos sessenta é saber que existe a morte na espreita. Agora só desejo ficar quietinho, ir me apagando de tudo e de todos. Epa, mas espera aí, preciso ler o Estatuto do Idoso, sei que vou ter alguns privilégios, pode ser um afago no meu viver.

Lauro Juarez Prata Sabino Loes.
Lauro.juarez@hotmail.com

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Carla

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