Marcos Moreno — 13 janeiro 2012 - ás 18:26
“Lucilia – Rosa Vermelha”

“Lucilia – Rosa Vermelha” é o título da biografia da pioneira do feminismo em Uberaba e de uma das 17 primeiras vereadoras de Minas Gerais, eleita aos 35 anos, em 1947, em Campo Florido, no Triângulo Mineiro. Ela pertencia ao PSD (Partido Social Democrático), embora fosse ligada ao então clandestino PCB (Partido Comunista do Brasil) desde os 18 anos. Lucilia Soares Rosa nasceu em Uberaba (MG), em 1912, filha do alfaiate Calisto Rosa e sobrinha do professor e agrimensor Alexandre Barbosa, católicos até a adolescência, ambos tornaram-se anticlericais e anarquistas. Eles exerceram importante influência sobre ela. Seu avô materno, José Severino Soares, o “Juca” Severino, foi respeitável fotógrafo no Brasil Central, entre 1860 a 1917.
Lucilia não foi batizada na igreja. Nunca pintou as unhas e nem se maquiou. Namorou muitos. Dois primos a pediram em casamento. Foi costureira de vestido de noiva. Casou por contrato com homem casado. Foi professora, faxineira e cozinheira de ‘mão cheia’. Ateia desde criancinha e espiritualista aos 90 anos: “Há algo mais. Eu não acredito em Deus, mas alguns amigos acreditam e eu acredito neles”, dizia.
“O Capital” – principal livro de críticas ao capitalismo – foi sua cartilha durante décadas, mas nos último anos de vida gostava que lessem a “Bíblia” para ela. “Dedicou sua vida à causa revolucionária. Lutou por uma sociedade justa para todos. Lucilia significava solidariedade, sinceridade. Disciplinadora, porém doce, amável e, às vezes, até angelical. Gostava muito de conversar. De contar causos seus e dos outros, todos sem censura”, relata o jornalista Luiz Alberto Molinar, coautor do livro que será lançado hoje. A  noite de autógrafos acontece  das 19h às 22h, no Centro Cultural Cecília Palmério. A banda Lira do Borá, de Sacramento, interpretará músicas do cantor Jamelão, o preferido de Lucilia, e o hino do USC. O violoncelista Carlos Pérez e o ator Milo Sabino apresentarão o hino “A Internacional”, de movimentos socialistas, que a homenageada cantava com emoção. O documentário “Lucilia: 90 Anos de Memória”, produzido por então estudantes de jornalismo em 2002, entre eles a jornalista Tereza Ávila, será exibido durante o evento.
Um pouco mais sobre a “Rosa Vermelha”
Lucilia tinha memória extraordinária e manteve um acervo rico de documentos, entre eles, correspondências que manteve com Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do PCB entre os anos de 1930 e 1980, e com Anita Leocádia, filha dele com Olga Benário, morta em campo de concentração nazista, na Alemanha. Lucilia manteve contato permanente com ela por mais de 30 anos. Moraram juntas durante dois anos e meio, entre 70 e 72, clandestinamente, durante os anos mais sangrentos da ditadura civil-militar, em São Paulo (SP). Passava-se por tia de “Alice Nascimento”, codinome de Anita. Residiu também, durante três meses, em 1962, na capital paulista, com a família de Prestes, a quem ajudava a cuidar de seis dos sete filhos.
Sua biografia é extensa e riquíssima, pois viveu até os 98 anos de idade. Morreu em 3 de março de 2011.

O livro
O projeto de pesquisa sobre Lucilia surgiu durante visita do então presidente da Câmara de vereadores de Uberaba, Lourival dos Santos (PC do B), a ela. Estava, em 2006, com a saúde debilitada após 25 dias em coma. Ao ser indagada sobre seu sonho, disse que gostaria de ter sua trajetória publicada em livro. A partir daí, a então diretora de Comunicação do Legislativo, Evacira de Coraspe, idealizou o trabalho desenvolvido pela historiadora Luciana Maluf Vilela e pelo jornalista Molinar.

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