Marcos Moreno — 17 fevereiro 2012 - ás 5:00

Máscara Negra

Se alguma escola de samba fosse apresentar um enredo contando a história do Carnaval, certamente alguns expectadores na avenida ficariam surpresos com o fato de referências ao Brasil aparecerem somente do meio para o fim do desfile. Isso ocorreria porque, de fato, o país entrou na história da festa popular apenas a partir do descobrimento pelos portugueses, no ano 1.500, quando essa manifestação cultural já contava mais de mil anos de trajetória
O Carnaval teria surgido ainda antes de Cristo, segundo a diretora de documentação da Fundação Joaquim Nabuco, Rita de Cássia Araújo. Ela revela que existem pelo menos duas correntes entre os pesquisadores para explicar a criação da festa. A primeira afirma que o Carnaval tem como origem as festas populares que ocorriam na era pré-cristã no Hemisfério Norte, principalmente no Egito, em Roma e na Grécia, para celebrar o fim do inverno e a chegada da época do plantio de lavouras. Não havia referências religiosas, mas já havia as brincadeiras e as máscaras.
De celebração agrária a festa ganhou contornos religiosos quando o cristianismo atribuiu significado à festa, que passou a ser vinculada à Páscoa – a Terça-Feira Gorda é 47 dias antes do Domingo Páscoa. A festa, então, ganhou o sentido de tempo de diversão e exagero de comida e bebida que antecede a entrada num período de reflexão e jejum dos cristãos antes da Páscoa, quando os fiéis teriam de se recolher e rever sua vida.
Ainda segundo Rita, a segunda corrente de pesquisadores diverge da idéia de festa surgida há tanto tempo, sustentando que o Carnaval tem múltiplas origens, com diferentes significados e contextos que levara ao seu nascimento em cada região.
No Brasil, o Carnaval chegou com os portugueses com o nome de intrudo, baseado principalmente em brincadeiras em que pessoas sujavam umas as outras como o mela-mela. “Havia uma distinção social nessa festa. As famílias brancas brincavam nas casas e os escravos brincavam nas ruas”, diz Rita.
Com a declaração da independência do Brasil, em 1822, o intrudo, de raiz colonial, passou a ser visto como algo negativo e atrasado. Por isso, a partir da iniciativa de intelectuais, artistas e imprensa, há um rompimento com a tradição colonial na segunda metade do século XIX e a adoção no país de modelos de festa trazidos da Itália e da França, já com o nome de Carnaval (que teria o sentido de “adeus à carne”). “Aí que entraram os bailes e os desfiles nas ruas com alegorias”, destaca Rita.

Evolução do carnaval – Durante tanto tempo, a festa de Momo por aqui, foi ganhando novos contornos. A pompa que existia há alguns anos nos desfiles de fantasias no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e que consagrou nomes como o de Wilza Carla e Clóvis Bornay, por exemplo, já existe mais. As festas nos grandes salões perderam espaço para o carnaval de rua, o ritmo do Axé e tantos outros que a cada ano dão outro tom à folia. A capital brasileira do carnaval, o Rio de Janeiro, encontrou uma concorrente, Salvador. As duas cidades são hoje as grandes mecas do reinado de Momo. No Rio, os desfiles de Escolas de Samba entraram na era da tecnologia e carros alegóricos e fantasias são cada vez mais sofisticados, promovendo espetáculos de rara beleza. Já na Bahia, o povo vai para a ruas, vestem seus abadás e a festa ganha outras matizes. As marchinhas populares já não caem mais no domínio popular.
De qualquer maneira, a “Máscara Negra” de Chico Buarque continua dando o tem geral: “…mas é carnaval, não me diga mais quem é você. Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar…”

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