Mozart Jr Opinião — 10 fevereiro 2012 - ás 11:16

Os últimos românticos I
Poucas coisas que li ultimamente me deram tanto prazer quanto o excelente artigo do redundantemente sensacional Xico Sá, da Folha. O texto fala da morte do cantor Wando, realmente um dos últimos românticos, e faz também um paralelo com o modismo atual nas canções sem romance.
Fantástica a paródia ao texto de Caetano, o Estrangeiro, quando ele diz, Nelson Gonçalves morreu, Waldik Soriano morreu, Wando morreu e o macho romântico brasileiro não está passando muito bem. Muita gente vai estranhar meu texto e até me questionar, dizendo que não sabia que eu era tão fã do Wando, e não era. Apenas acho que o momento é propício para levantar uma discussão que não cala nunca, a questão do brega.
Quem rotula, quem estabelece o que é brega? Em um mundo cada vez mais tecnológico e cada vez menos aprofundado em suas opiniões, vemos essa geração dos filhos do Google desprezarem os filhos do Bob Dylan, clientes da Coca Cola, aliás, único traço em comum entre as gerações. Vemos a geração copiar e colar sem questionar a procedência cada vez com mais ímpeto e cada vez mais arrogantemente sentindo-se dona da verdade, simplesmente porque a verdade parece ser domínio público. Parecer nunca foi sinônimo de ser, mas ainda demora um pouco pra cair essa ficha.
Outro dia, um jornal de estudantes listou músicas bregas e, para minha surpresa, canções que eu tinha como clássicas estavam ali. Para aquela turma fã do Kuduro, que encanta “as mina” com o “ai se eu te pego”, para eles, simplesmente hinos de nossas melhores discussões intelectualóides sem futuro são o brega. Mercedes Sosa é aberração, Milton Nascimento é só um cara que cantou uma música legal um dia, apenas uma.
Como disse Márcio Greyck, MPB virou uma sigla que não tem nada a ver com popular. Na verdade, não mesmo. MPB é nome de um movimento, de uma época, de uma luta para impor uma música genuinamente brasileira, com raízes aqui, com temas daqui. Hoje, realmente a sigla passa a ter uma abrangência que não é mensurável, incluem-se nela vários segmentos. Mesmo a geração Y pode constatar isso pelos sites de música. Quando se clica no link para MPB, o universo é tão vasto e confuso que não dá para se ter uma definição exata. Alguns sites, inclusive, já tiraram a sigla e substituíram por música brasileira.
A música brasileira tem, hoje, uma diversificação muito maior do que há alguns anos, mas isso não implica necessariamente em uma qualificação do mesmo nível. O que vemos, na verdade, é um sem número de regravações, de novas roupagens para velhos clichês e o que é pior nem sempre uma roupagem mais bonita. Já falamos de amor de uma forma um pouco menos chula e nossas mulheres já foram homenageadas com expressões um tanto quanto melhores do que alguma usadas hoje em dia. Pode ser que eu só esteja ficando velho, mas e se não for? Fui…

Mozart Alves de Almeida Jr.
Diretor de Redação do JU

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Sobre o Autor

Carla

(1) Comentário

  1. UAU!!! Estou cada vez mais apaixonada nas falas deste Redator. Sua clareza de expressão me facina. Ele faz questão de que entendam o que ele escreve e isto é muito bom. SOMA!
    Sim , Sr. Mozart, Wando foi uma perda para nós mulheres. Porque gostamos desse galanteio, de ser cortejada com olhares insinuantes e atrevidos de nosso amado. Gostamos de respeito e de que nos mande flores . Isto alimenta a nossa alma e irriga a nossa feminilidade, que o progresso insiste em deixá-las rústicas.
    Sobre nossos grandes autores de verdadeiras músicas, como citado, talvez tenham deixado fresta na musicalidade, que tornou-se essa”avalancha” de barulho, palavrões e promiscuidade ritmada. Simplesmente afastaram para dar espaço a essa coisa que eles chamam de música. O sertanejo romântico ainda não deixou nenhuma fenda, mas andam titubiando no relacionamento das duplas e isto enfraquece um pouco. Vão aguentar segurar esse desbronco? Acredito muito nisso, visto que são poucos os autores sobreviventes nessa guerra desenfreada, Mas ainda são muitos os apreciadores que fazem questão de curtir se não novas as antigas e verdadeiras canções. Obrigada! 11/02/12

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