Opinião — 17 fevereiro 2012 - ás 5:00

É Carnaval

Estimado leitor, houve um tempo em que o carnaval, festividade que, oficialmente, começa amanhã, não se limitava a tocar somente músicas baianas e congêneres; as marchinhas dominavam a cena. Perdoem-me aqueles que apreciam o carnaval de hoje, mas não abro mão das velhas músicas, que, infelizmente, não são mais tocadas, senão em raríssimas e honrosas ocasiões.
Com o objetivo de relembrar um pouco da sua história, peço licença para comentar algumas marchinhas que se tornaram verdadeiros clássicos.
Começarei pela composição da maestrina Chiquinha Gonzaga Ô Abre Alas, de 1899, considerada a primeira marcha feita exclusivamente para o carnaval. Segundo alguns autores, a composição teria sido feita a pedido de alguns componentes do Cordão Rosa de Ouro. Outros afirmam que a compositora deu acabamento a antigas canções folclóricas, cantadas em rodas. O fato é que Ô Abre Alas, quando era executada, incendiava imediatamente o salão.
Joubert de Carvalho, músico uberabense, compôs Pra Você Gostar de Mim (Ta-hi), gravada por Carmem Miranda em 1930, em vinil de 78 rpm. O Ta-hi não estava na letra original, e foi acrescentado posteriormente. Joubert de Carvalho já havia composto algumas outras canções. Mas, ao apostar na iniciante Carmem Miranda, teve seu talento reconhecido nacionalmente, uma vez que o disco vendeu 35.000 cópias em apenas um mês.
Em 1932, o carioca Lamartine Babo compôs Linda Morena, e o sucesso foi tal que, três meses depois, estreava no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, o show homônimo, que bateria recordes de bilheteria. Segundo algumas fontes, essa foi a música que inspirou o compositor Braguinha a escrever, mais tarde, os versos de Linda Lourinha, outro clássico indiscutível do gênero carnavalesco.
Do mesmo Braguinha, mas em parceria com Noel Rosa, Pastorinhas representou uma guinada nos rumos que as marchas estavam seguindo. De ritmo mais lento, inaugurou o estilo marcha-rancho, inspirado na cadência do Rancho das Pastoras, que desfilava sempre no Dia de Reis, no Rio de Janeiro.
Jararaca e Vicente Paiva lançam, em 1936, um dos ícones dos bailes de salão. Não há um único folião que não cante de cor Mamãe Eu Quero. A marchinha surgiu numa época em que o gênero se firmava definitivamente como um dos ritmos carnavalescos por excelência. O tom irônico, humorístico e malicioso agradou em cheio os amantes das marchinhas.
Graças a uma interpretação primorosa de Orlando Silva, o cantor das multidões, A Jardineira, marcha de origem bastante discutida, obteve o segundo lugar no concurso carnavalesco promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro, em 1938, e foi eleita a preferida dos foliões. Interpretada de novo por Orlando Silva, a marchinha também fez sucesso no cinema, sendo a principal canção do filme Banana da Terra, lançado no ano seguinte.
No carnaval de 1941, Aurora, de Mário Lago e Roberto Roberti, ganhou extrema popularidade, tanto nas ruas, quanto nos salões. Interessante observar que a letra (Se você fosse sincera / ô, ô, ô, Aurora / veja só que bom que era / ô, ô, ô, Aurora / Um lindo apartamento / Com porteiro e elevador / E ar refrigerado para os dias de calor / Madame antes do nome / Você teria agora) expressa, ao mesmo tempo, um dos mais antigos e atuais dilemas do comportamento humano: a mulher infiel, que perde sua condição de pessoa séria e, consequentemente, se vê obrigada a abrir mão de algumas mordomias.
Despeço-me desejando um feliz carnaval a todos.

Mozart Lacerda Filho é professor

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Carla

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